24 de jul de 2010

Carta ao presidente


O Chefe Seattle foi um dos últimos porta-vozes da ordem moral paleolítica.
Por volta de 1852, o governo dos Estados Unidos investigou a possibilidade de comprar terras indígenas para as pessoas que chegavam aos Estados Unidos, e o Chefe Seattle escreveu uma carta maravilhosa em resposta. Sua carta expressa realmente a moral de uma época. No entanto, ela é muito atual.


O Presidente em Washington nos informa que gostaria de comprar nossas terras. Mas como o senhor pode comprar ou vender o céu? A terra? A ideia nos é estranha. Se nós não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como se pode comprá-los?
Cada parte desta Terra é sagrada para meu povo. Cada folha brilhante do pinheiro, cada praia arenosa, cada névoa nos bosques escuros, cada prado, cada inseto ruidoso. Tudo é sagrado na memória e experiência de meu povo.
Conhecemos a seiva que corre através das árvores como conhecemos o sangue que corre através de nossas veias. Somos parte da Terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia, estes são nossos irmãos. As cristas rochosas, o orvalho nos prados, o calor do corpo do pônei e o homem, todos pertencem à mesma família.
A água brilhante que se move nas correntezas e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos ancestrais. Se lhe vendermos nossa terra, o senhor deverá se lembrar de que é sagrada. Cada reflexo espectral nas águas claras dos lagos conta eventos e memórias na vida de meu povo. O murmúrio das águas é a voz do pai de meu pai.
Os rios são nossos irmãos. Eles satisfazem nossa sede. Eles levam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Assim, deve-se dar aos rios a bondade que se daria a qualquer irmão.
Se lhe vendermos nossa terra, lembre-se de que o ar nos é precioso, que o ar partilha seu espírito com toda a vida que sustenta. O vento que deu ao nosso avô seu primeiro alento também recebe seu último suspiro. O vento também dá aos nossos filhos o espírito da vida. Assim, se lhe vendermos nossa terra, deve mantê-la separada e sagra¬da, como um lugar onde um homem possa ir para sentir o vento que é adoçado pelas flores do prado.
O senhor ensinará a seus filhos o que nós temos ensinado aos nossos filhos? Que a Terra é nossa mãe? O que acontece à Terra acontece a todos os filhos da Terra.
Isso nós sabemos: a Terra não pertence ao homem, o homem pertence à Terra. Todas as coisas estão ligadas como o sangue nos une a todos. O homem não teceu o tecido da vida, ele é meramente um filamento nela. O que for que ele fizer ao tecido, ele faz a si mesmo.
Uma coisa sabemos: nosso deus é também o seu deus. A terra é preciosa para ele e prejudicar a Terra é uma grande ofensa a seu criador.
Seu destino é um mistério para nós. O que acontecerá quando os búfalos forem todos abatidos? Os cavalos selvagens domesticados? O que acontecerá quando os cantos secretos das florestas estiverem pesadas com o cheiro de muitos homens e a visão de colinas for manchada por fios elétricos? Onde estará a mata? Terá se acabado! Onde estará a águia? Terá perecido! E o que é dizer adeus ao ágil pônei e à caçada? O fim de viver e o começo de sobreviver.
Quando o último Homem Vermelho tiver desaparecido com a vida selvagem e sua memória for somente a sombra de uma nuvem se movendo através da campina, estas praias e florestas ainda estarão lá? Restará algum dos espíritos de meu povo?
Amamos esta Terra como um recém-nascido ama a batida do coração de sua mãe. Assim, se lhe vendermos nossa terra, ame-a como nós a temos amado. Cuide dela como nós a temos cuidado. Tenha em mente a lembrança da terra de como quando a recebeu. Preserve a terra para todas as crianças e a ame, como Deus nos ama a todos.
Como somos parte da Terra, vocês também são parte da terra. Esta Terra nos é preciosa. É também preciosa para vocês.
Uma coisa sabemos: há apenas um Deus. Nenhum homem, seja ele Homem Vermelho ou Homem Branco, pode ficar separado. Somos irmãos, afinal.




Este artigo foi extraído do livro The Power of Myth (O poder do mito) de Joseph Campbell e publicado na Edição de Junho/90 do Jornal Real*, página 16)
* O Jornal Real era uma publicação interna do Banco Real para os funcionários, trazia fotos de festas, eventos, reportagens úteis, entretenimento e cultura.