24 de set de 2015

A loja do meu pai


A loja do meu pai... pensei em começar a redação, assim, usando parte do título como início de frase, exatamente como uma redação escolar.
Não tem como evitar o ar de conto escolar, como aqueles sobre “a volta às aulas”, ou sobre “minhas férias”, ainda mais quando se pretende relatar fatos, pouco comuns, nos tempos atuais.
Fica um inevitável clima de “Éra uma vez...”
Contudo, a história que relato, a partir de agora, não é apenas um “conto de fadas”. É uma história real, como devem existir outras tantas, de trabalhadores no comercio, de gente do campo ou qualquer outra atividade.
Esta, pode ser considerado uma pequena história de um pequeno negócio, de uma família qualquer. Contudo, não é assim que a observo do ângulo que estou.
Meu pai tem uma loja, um pequeno comércio de variedades, no Mercado Municipal de Araraquara, sua, loja já está lá desde 1968.
Não é a primeira loja que ele abre, nem a última. É a loja entorno da qual, um mundo girou.
Lembro do olhar de menino curioso, devorando incansavelmente as prateleiras e vitrines, cintilando, a cada novidade descoberta e haviam muitas. Quase todo dia, algo de novo estava a venda.
Canivetes diferentes, calçados de trabalho, botas, cintos, uma infinidade de coisas que nem dá para relacionar.
Ora era um pente importado, ora uma caneta com tinta perfumada. Eletrônicos cheios de novidade e botões, como os rádios de 12 faixas.
Matéria prima para mil brincadeiras, engenhocas para sonhos de espião.
Produtos para atender as necessidades básicas dos clientes, não podiam faltar.
Lâminas de barbear e palhas de milho para cigarros, vendidas uma a uma, camisas, luvas de raspa de couro, congas e chuteiras, afinal, futebol é tão importante para nós, quanto o ar e o alimento.
A loja, nunca gostou de arrojos e rompantes. O pouco se mudou, foi mais por necessidade dos tempos do que por desejo. Depende-se de sua vontade, continuava com seu balcão em curva, entalhado em madeira.
Com certeza é uma loja mineira. Fica ali, no cantinho do Mercadão, de cócoras, dentro do seu próprio ritmo.
Ao mesmo tempo, como todo bom mineiro, está atenta e sempre prestativa. Braços abertos para os clientes!
A loja já teve jovens e senhores, como funcionários. Alguns, entraram crianças e saíram adultos, outros, continuam por gerações, na loja. No fim das contas, todos, de uma forma ou de outra, continuam, por lá, ou melhor dizendo, carregam parte da loja, onde quer que estejam.
Com ela, não se aprende somente o ofício de comerciar.
Aprende-se muito mais do que atender, negociar, fazer contas, dar trocos e embrulhar as compras. O que já seriam grandes lições em um mundo com tantas lojas nem ai para a instrução de seus vendedores.
São lições para a vida toda!
Aprende-se a entender a outra pessoa. Reconhecer gostos, desejos diferentes.
Respeitar as pessoas pelo que são e não pelo que aparentam ser, ou pelo dinheiro que tem na carteira. Afinal, são inúmeras as vezes em que os clientes de menores posses, se mostraram os mais fiéis.
Na loja, ninguém tem idade. Grupos não são formados por etnias, cores ou religião. Nela, todos são iguais.
É fácil ver uma rodinha de clientes, concorrentes, amigos, funcionários e patrões, conversando alegremente sobre um determinado assunto.
Gargalhadas até podem ser ouvidas nestes momentos, mas, não da loja. A loja é mineira. Seu sorriso é contido, quase um deboche.
Com ela, aprendermos a “ser gente”!
Eu e meus irmãos já trabalhamos lá, cada um ao seu modo, com suas características e seus sonhos pessoais.
Nem todos continuam com ela, mas, todos não se afastaram dela.
Até minha mãe, que embora negue e diga que não gosta da loja (deve ser uma pitada de ciúmes), já foi lá trabalhar nela, nas horas de maior sufoco.
Minhas filhas, com ela trabalham
Não foi uma vida fácil, esta da loja. Não! Não foi nada fácil, para dizer a verdade.
A contragosto já trocou de nome e trocou de cor. Já se expandiu e se retraiu.
Viu passar, na frente de sua porta, épocas de ditadura, hiperinflação, planos econômicos dos mais variados possíveis. Tempos de rédeas curtas, momentos de crescimento econômico e até “milagres eleitoreiros”.
Políticas e politicagens, viu de tudo.
De candidatos distribuindo beijinhos nas crianças, pelos corredores do Mercadão, até, ideias de transformar o lugar em restaurante público.
Viu outras lojas, vizinhas, nascerem. Algumas prosperarem outras, perecerem.
Lojas que escolheram o caminho errado, mais até, que escolheram a vocação errada e acabaram dando com os burros nágua. Porque ficaram com o nariz em pé e esqueceram quem era seu público.
Com o canto dos olhos viu, “homens da cobra” e vendedores do “baú da felicidade”, apresentarem seus produtos; malucos e bêbados, cantarolarem suas músicas, prosearem com Deus e escalarem seleções de futebol, de tempos idos.
Viu “de ladinho”, uma rodoviária chegar, trazendo milhares de novos clientes, depois viu ela partir, trazendo o vazio para os corredores do Mercadão.
Esteve ali, firme e forte (pelo menos era o que os clientes pensavam), dando crédito e de portas abertas, nos tempos de vacas magras.
Falências de empresas, desemprego na cidade. Recessão econômica, Arroxo salarial, Fim da Usina Tamoio, Crise da laranja e da cana de açúcar, de tudo já viu e sentiu na carne.
O Proálcool, já foi seu amigo e seu inimigo.
Leis malucas e populistas de tabelas de preços, congelamentos, tablitas, assombraram nas noites de sono da loja, que insistiam em entrar por sua única janela, assim com os gatunos.
Modismos chegaram, foram adotados por ela, que pendurava por todas suas prateleiras, “chaveiros do Greg”, lenços de “Porcina” e botons dos “Menudos”.
Já usou chapéu panamá, depois, chapéu de palha, os “antiquados bonés” com corte brasileiro, usou até “cata ovo” e agora usa os “dáhoramano” bonés de design gringo, mesmo assim, até hoje, no meio do ano, usa seu chapéu de caipirinha e a cada 4 anos, afirma com todas as 4 cores, sua paixão nacional.
Seu sorriso já foi negro, de altos dentes de rolos de “fumo”, Arapiracas, Jorginhos, Amarelinhos, Goianinhos...
Depois colocou na testa, “bandana” de maços de cigarros industrializados.
Leis mudaram, tempos mudaram e os cigarros sumiram, o “fumo” aos poucos está se dissipando, como a própria fumaça que produziam.
Aqui, eu devia levantar bandeira, contra o cigarro industrializado. Em defesa do fumo de corda. Pois, o cigarro industrializado é o verdadeiro vilão, que o poder público não quer enfrentar, pois gera impostos, mas, vamos deixar esta questão para uma outra história, afinal, aqui a grande estrela é a loja.
Hoje, mesmo com todos os anos acumulados, não podemos chama-la de velha senhora.
É sim, uma grande dama, cheia de atrativos e segredos.



22 de set de 2015

O planeta dos 99 centavos



Este é um estranho planeta.

Aqui, vendem produtos com preços terminados em 0,99, para criar a ilusão de produto em promoção, produto com desconto.
De cara, o logista leva 0,01 centavo de brinde.
Além disso, os preços são acrescidos de "gordura", para depois aplicarem os descontos.
O mais engraçado é que parece que os habitantes deste planeja, gostam de fingir que acreditam em descontos.

Eu mesmo já fiz uma experiência, nos tempos de jovem, quando administrava uma loja para meu pai.
Coloquei os produtos com a menor margem de lucro possível, para vender. Porém, não dava desconto.
Assim os preços ficavam os menores da praça.
Sabe quantos produtos consegui vender assim?
Nenhum!

Vou citar um exemplo:
Imagine que um belo chapéu de qualidade, estivesse sendo vendido por R$ 300,00 no preço médio na Praça.
Eu vendia os da loja por R$ 250,00.
O cliente chegava, pedia desconto, eu explicava que o preço era o menor da cidade e informava que não poderia dar mais desconto.
O cliente saia da loja, ia até a do concorrente. Lá o mesmo chapéu era vendido por R$ 350,00, com desconto promocional de R$ 40,00. O cliente comprava, ficava feliz e vinha na minha loja, me dizer que eu era um péssimo comerciante, pois meu concorrente, sim, deu R$ 40,00 de desconto.

Nestas horas não sei quem está enganando quem.
O logista feliz porque deu balão, o cliente feliz porque tomou vantagem. Cada um pensando que está enganando o outro, na verdade, está enganando a si.

15 de set de 2015

Exoesqueletos e as vitimas de AVC



Tenho visto, vários projetos de exoesqueletos para pessoas vitimas de paralisia, entretanto, nenhum destes projetos prevê a utilização do exoesqueleto pelos vítimas de AVC.
Nestes casos, diferentemente dos casos de paralisia dos membros superiores ou inferiores dos atletas, multimilionarios em seus acidentes automobilisticos ou esportivos, soldados em combate e vitimas de acidentes de trânsito, as vítimas de AVC, na maioria das vezes são pessoas de idade avançada e, portanto, consideradas pela sociedade como descartáveis. Muitas, sem condições financeiras para investirem no desenvolvimento ou compra de um exoesqueleto ou as poucas que possuem recursos financeiros, nenhum parente tem interesse que ela consiga voltar as ser independente, o que prolongaria sua vida.
Então, porque, investir em tal projeto?
Vejamos algumas questões:
Moralmente, seria digno que em reconhecimento pelo que já fizeram pela sociedade, pela educação dos filhos, etc etc, permitissemos que elas façam a escolha por usarem ou não um exoesqueleto.
Já pelo lado da saúde publica, é sabido que os gastos com os cuidados médicos dos pacientes acamados vítimas de AVC é altissimo e os maiores problemas enfrentados por estas vítimas, decorrem da falta de movimentação do corpo.
São elas, a atrofia muscular, a descalcificação óssea, as escaras a angustia e a falta de esperança da vítima e o desgaste psicológico e físico dos familiares.
Exoesqueletos, podem ser a solução
Para as pessoas que perderam lateralmente os movimentos e que possui o outro lado ativo, um exoesqueleto poderia utilizar os movimentos dos membros ativos, como referencia para os movimentos do lado oposto.
O usuário do exoesqueleto, controlaria se desejar usar o movimento, oposto ou o movimento igual ao do lado ativo.
Assim, em uma caminhada, quando o usuário, movesse a perna direita para a frente, a perna esquerda faria o movimento (memoria) para trás e assim, alternadamente e sucessivamente.
Em outra situação, o usuário escolheria o movimento idêntico, e assim, poderia sentar, quando dobrasse as pernas e o quadril.
E porque não fazer melhor e  criar um exoesqueleto que possa ser acoplado a cama, permitindo a vítima ou ao cuidador (nos casos de impossibilidade de auto controle do equipamento) a movimentação total, inclusive a colocação e retirada da vítima da cama.
Este que é um dos momentos mais delicados e que mais exigem cuidados e auxílio.
Sei que virão com o velho argumento que alguns senhores e algumas senhores, não aceitarão a ajuda de uma máquina para se locomoverem.
Contudo, eu afirmo que este é um argumento ultrapassado e inadequado.
O que as vítimas de AVC não querem é depender de outra pessoa. Se elas puderem controlar o equipamento, terão o desejo de usá-lo.
Basta que o usuário, tenha preservada a movimentação, mesmo que pequena, de parte de uma unica mão para que ele possa controlar um exoesqueleto deste tipo.
Não seria criado para tornar um soldo mais letal, nem necessitaria realizar tarefas extremamente complexas ou rapidamente.
Tudo seria realizado no tempo necessário para a preservação da vida do usuário.
E você, o que acha da ideia?
O que você pode fazer pelo projeto?
Que tal levantar esta bandeira?
Talvez você possa impulsionar o desenvolvimento, com sua ação ou doação?
Venha! Colabore, opine, realize!

Uma velha amiga dos tempos de escola

Hoje encontrei uma irmã, de uma velha amiga.
Amiga dos tempos de criança, dos tempos de escola, lá na "Escola Estadual de Primeiro Grau, Dorival Alves".
Eu ficava ali, ao seu pé, escondido do sol, nos dias quentes, durante o recreio ou nas janelas das aulas.
Sombra fresca e agradável, que eu aproveitava para ler mais um livro. As vezes um "Para Gostar de Ler", as vezes um "Sherlock Holmes".
Quando não estava lendo, colhia seus frutos dourados, semitransparentes. Cada fruto com sua semente negra, redonda.
Utilizava destas sementes, de improviso, como bolinhas de gude, com os amigos.
Lavava as mãos nas torneiras da escola, com o sumo das cascas das sementes.
Sabonete mágico, que fazia espuma e deixava os colegas curiosos.
Descobri outras brincadeiras, com as sementes:
De guardar as sementes, dentro de um frasco de Shampoo Johnson, com água. Para que depois de uns dias, as sementes triplicassem de tamanho o que fazia com que  estourassem o frasco, pela pressão que provocavam por dentro. Transformando-as, assim, em excelente matéria prima para uma inofensiva bomba relógio.
De usar como munição para estilinge, mas, nada superava a eficácia das sementes de mamona, para este fim. Então, as sementes, eram usadas somente em momentos de extrema necessidade de munição extra.
Hoje, depois de tantos anos, volto a encontrar uma destas árvores saboneteiras, carregada de frutos.
Hoje, seus frutos não estão dourados, estão castanhos, suas sementes, porém, continuam como sempre foram.
Naturais pérolas negras.



Para saber mais: Acesse Fruta de Sabão, na Wikipédia